Não há poema sem dom. Dom duplo.
A dádiva da inspiração e a dádiva
da técnica (vontade pessoal).
Duas obsessões: a própria, a do engenho
que se alcança através do estudo
e da prática e outra obsessão, esta
mediúnica, que se apodera de nós. Além
escrevemos o poema, aqui é o poema que
nos escreve — um fragmento da
palavra onde cabem o mundo e a expressão
do seu sopro. Pois não é com meras palavras
que invocamos o insecto e os oceanos,
o sorriso e as calamidades? Talvez
eu consiga, animado pelo espírito
e industriado pelo método, que algum rio,
ou a mulher que amo, entre no meu poema,
me entreguem a alma.
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